E se Braga fosse chuva
o diálogo de Braga com os bracarenses e dos bracarenses com Braga (um destes, especificamente)
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

catorze, quatorze, 14 ou 07/01/2008

Sim senhor.
Hoje é o dia que todos sabem ser e aqui começa o abismo do mundo. Todo o abismo do mundo começa aqui na ponta dos nossos dedos, até onde o nosso olhar alcança, os nossos ouvidos ouvem, o nosso nariz cheira, a nossa imaginação (essa prisão) nos permite. Aqui começa a vida, a marca, o passado escrito no futuro e os desvios do destino. Aqui e hoje somos hoje e aqui e começamos o interminável. As nossas mãos podem. Aqui, hoje, as nossas mãos não são mais do que o nosso futuro. As nossas unhas arranham as cordas da nossa música, a pele cristaliza e esticamos o crescer. A caneta não chega sequer para se perder.
Hoje é o dia!
E vai ser sempre assim!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

treze, treuze, 13

Desde (o meu) sempre que as pessoas se queixam da repetição. No entanto repetem-se lenitivamente.
A rotina que nos circunda causa um inevitável tédio reconfortante ao qual nos agarramos apenas quando o abandonamos. Mas tirando o abandono, não se fazem esforços para modificá-lo por dentro. Para transformar os motivos de queixa eclipsando-os em nuvens de satisfação. Talvez porque se tal acontecer depois não haja tédio onde regressar, e isso é algo terrificante.
Por isso, paramos quase todos os dias no mesmo sítio para conjecturar as várias maneiras de fugir de Braga. Paramos em Braga sempre a conjecturar outro sítio onde possamos parar.
Fugimos e deixamos cá ficar a rotina para podermos voltar, como boomerangs lançados por vontades alheias.
Transformar Braga em algo desrotinizante seria, desta forma, negar a própria cidade. Sem ter que parar no mesmo sítio, sem sentir a repetição lenta de frames da cidade debaixo das pálpebras, estaríamos obviamente noutro sítio que não a nossa casabraga. Desaparecia-nos.
Eu queria mudar a cidade por dentro mesmo correndo o risco de ficar sem pára-quedas.
(vamos todos fazendo o esforço, mas uma almofada, apesar de entediante, é sempre uma almofada)

doze

… e por falar em espaço neuronal ocupado com a cidade.
Quando reparo em mim a pensar, reparo que mais de muitas vezes me misturo a mim e envolvo os outros com a menina humedecida pelo Este. Pode parecer estranho só agora ter dado conta disso, apesar do presente documento ir crescendo desde há algum tempo, mas Braga é um sinal na pele das costas. Faz-me comichão, coço, comento, escrevo sobre isso, mas deparo-me com essa convivência mais que íntima só quando, através de um complexo jogo de espelhos, me deparo com a nudez de tal marca em mim; ou quando me dizem: “Ei! Tens um sinal nas costas.”
O jogo de espelhos serviu-me para constatar o óbvio. Ninguém me disse nada.
Será nocivo este sinal? Será melhor ir ao médico?
Não causa sofrimento significativo por isso não deve ser muito grave. E está de tal forma enraizado que dificilmente sairá. Em bom brasileiro nordestino: “É eu!”

onze

E os nomes dos de Braga são: todos (todos os nomes de todos o que guardam uma sinapse que seja com a dita).

dez

A Augusta menina que desde cedo se depara com a castração química dos sonhos. Braga, o útero viscoso de ideias abortadas.

ausência

De vez em quando todos sentimos uma sensação estranha de que falta qualquer coisa. Temos uma construção mental indefinida de algo que tem como maior semelhança o vácuo. Por vezes surgem-nos algumas coordenadas que, embora não o sejam, nos dão alguma noção de palpável.
Logo se desvanece essa noção quando temos uma pequena distracção e a única frase que a nossa parca linguagem nos permite construir é:
- Tenho a sensação de que me falta qualquer coisa.
Conquanto não seja nada de cientificamente comprovado, suponho que esta sensação de vácuo seja, comum a todos, no que diz respeito a objectos, ainda assim, relativamente a pessoas, acredito que seja mais raro, senão mesmo inexistente. Será que há mesmo alguém que diga:
- Tenho a sensação que me falta alguém.
Não me estou a referir a professores em visitas de estudo ou a rebanhos de amigos em noites de santos populares. Estou-me a referir a pessoas que fecham a porta de casa e pensam isso, que apertam os cordões dos sapatos e pensam isso, que colocam uma garfada de arroz na boca e pensam isso, que assoam o nariz e pensam isso.
Não tenho a veleidade de pensar que sou o único, mas duvido que este seja um sentimento comum a toda a humanidade.
Quando queremos referir algo indefinido somos simplificadores. As coisas que se escrevem no género feminino são coisas e as coisas que se escrevem no género masculino são coisos, logo a indefinição vem da linguística. As pessoas têm um nome, mas mesmo este tem momentos em que para os outros oscila entre coisa e coiso (com c maiúsculo) e apenas o nome não define alguém.
Quando falta alguém, o tal alguém indefinido, procuramos achar um nome, mas esse nome nem por isso preenche o vácuo.
Este vácuo, não o enquadro só ao contexto romântico do falta-me alguém para amar, ou da amizade do falta-me alguém para conversar. É um vácuo generalizado, que nos transmite apenas que na nossa vida nos falta alguém.
Quando há fogo falta-nos um bombeiro, quando há doenças agudas, um médico, quando há fé e crise, um padre. Mas e quando não há nada, nada de excepcional? Quando os dias correm na sua tonalidade cinzenta pintalgada de cores alegres? Quem é que nos falta?
Parece que estamos a jogar ao “Quem é quem?” viciado porque não sabemos o nome, nem o local semântico ao qual associar. Qual “Cavaleiro Inexistente” inexiste-nos em tudo excepto na sua apenas definível presença.
Poderia ser sufocante, mas não é, assim como provocar paranóia, mas não o faz. Pode até ser visto como positivo porque a ausência é sempre um factor que alimenta a esperança, esse bichinho cheio de apetite que funciona como motor.
Uma das vezes em que senti essa ausência foi num sonho. Estava algures numa cidade balnear e estava com quase toda agente que conheço e com quem costumo estar. Ia falando com este ou com aquela. A dada altura apercebemo-nos todos que em acontecimentos que recordávamos havia mais um de nós:
- Eu, o Artur, o Diogo e “ele” fomos ao café.
De nenhuma maneira conseguimos saber quem era ele. Não sabíamos o nome, apenas tínhamos a informação acerca do género (neste caso masculino), não sendo, apesar disso, possível defini-lo sequer como o Coiso. De resto tínhamos apenas a sensação de que preenchia os espaços em branco deixados, não pela nossa memória, mas por nós mesmos. Chegava-nos ao corpo a impressão de que “ele” tinha as características que todos tínhamos e todas as que gostaríamos de ter. Toda esta informação não nos permitia ser mais definidos porque as perspectivas que temos de nós próprios e das nossas expectativas varia entre cada um. Seria, talvez, uma “folie a deux” partilhada por todos. Não existia em nós a ideia bacoca de sermos todos e o nosso espírito de grupo, ou do um mais um igual a três, ou a ideia de deus, anjo ou demónio. Sabíamos que estava lá, só não sabíamos quem, nem como, nem porquê?
Apesar da confusão do sonho acordei bem-disposto e com as ideias organizadas. Não sou pessoa de acreditar no destino, intuição, premonição ou qualquer coisa parecida. Mas passei a acreditar que temos definitivamente espaços vazios que muito raramente se manifestam e ainda mais raramente se preenchem.
Lembrei-me ao acordar que conheci pessoas que vieram preencher esses espaços previamente manifestados. E normalmente só me apercebo disso quando o vácuo regressa com a oclusão dessas mesmas.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

nove

Costumo andar pela rua a olhar para dentro de qualquer coisa: de mim, de uma ideia, de uma ideia de mim, de uma outra pessoa, de uma ideia de outras pessoas misturadas com frutas e medo, raramente de uma montra.
Mais de muitas vezes distraio-me e tropeço. Não caio, mas sinto a vertigem de voltar a cair na realidade. Fisicamente vou a olhar para o chão, para o ar, para os outros, mas não é disso que me lembro quando regresso.
Não sei como é que ainda não fui atropelado ou me parti todo numas escadas. Suponho que o meu mecanismo de regresso funciona o suficientemente bem para evitar isso.
No entanto são raras as vezes em que reparo que vou a falar sozinho… o que, embora não seja razão para acidentes, transmite uma imagem demasiado real do que sou para fora. E ninguém gosta de ser apanhado dentro de si por desconhecidos. (Vou atar um fio dos lábios às pernas e isso vai-me fazer tropeçar e assim prevenir-me vertiginosamente da realidade circundante.)

...

Numa rua, numa mesa. A conversa era o que era, por vezes repetida no álcool. O primeiro encontro entre nós foi o que surgiu de imediato perante o fim, que vinha a ser adiado. Efeéeleicêidêádeàdêé e a incompatibilidade.
Um dia escrevo a tua biografia…

oito

As pessoas são geralmente constituídas por três mil trezentas e cinquenta linhas oblíquas encruzilhadas numa rede caótica, tipo cidade medieval, ortogonal, árabe, rádioconcêntrica, romana, castreja… Não é possível conhecer absolutamente todas as linhas, assim como todas as ruas, até porque o número três mil trezentos e cinquenta é apenas mais um número infinito.
Eu sou um rapaz simples, com o meu chapéu de palha, e penso que, não me conhecendo as ruas oblíquas, os outros me distinguem as linhas gerais.
Por sua vez, os outros avizinham-se mais complexos, dado que, como nos meus sonhos, encontro sempre bairros novos, novas maneiras de chegar aos mesmos sítios e velhas maneiras de chegar a sítios diferentes.
Na sua simplicidade de chapéu de palha, Braga perde-me nos sonhos, e acordado encontro sempre as linhas gerais. Mas de vez em quando abrem novas ruas…
Somos todos cidades encriptadas, alguns cidades mentirosas, outros cidades feitas de nuvem, alucinadas, perdidas dentro de bairros micro-cósmicos e cheios de três mil trezentas e cinquenta cidades- linha obliquamente encruzilhadas.
Se olharmos para cima vemos sempre o mesmo.

sábado, 27 de setembro de 2008

intervalo

A ressonância na minha cabeça… ondas boomerang que me infligem o que se pode chamar de dor ou de indício de vida.
Estou adormecido debaixo do colchão e não consigo acordar por mais que queira.
As minhas pernas transformam-se em braços através de um processo evolutivo no mínimo hediondo.
O meu medo transformou-se numa cerca com um rebanho preso bem no centro dela.
Se eu soubesse alguma coisa fazia por me corrigir e regressar à paz da ignorância. Assim deixo-me estar feliz em cima da casa.
Tenho desenhos de mãos nas costas e crocodilos esfomeados no umbigo.
Sei que começo aqui e que o fim sou eu.
Resta-me agradecer-te por nada.

domingo, 24 de agosto de 2008

seis

Somos fantasmas. Corpo presente, mente ausente noutro qualquer lugar no espaço e tempo.
- Daqui a uns anos, meses, dias, semanas, minutos estarei noutro sítio!
Corpo presente, como nas últimas missas antes do funeral, a fervilhar várias espécies de bichos, que vão crescendo e nos consumindo, e nos transformam em sombras dos fantasmas que somos, ou nos alimentam a mente e transportam daqui para fora.
Opção B: - Traga o cá para fora cá para dentro! – O cansaço não o permite, mas por outro lado os fantasmas não se cansam.

cinco

Eu e eu sozinho com a dor da ausência em todos os sítios, praças, lugares, largos, pracetas, ruas, avenidas, parques de Braga. Eu farto do eu e comigo na mesma à espera de outro alguém em todos os sítios. Eu e eu e os sítios da cidade. Estou farto de Braga por minha causa, por estar farto de mim, por me imprimir a mim próprio a ausência, por Braga me imprimir essa ausência em mim que lhe imprimo a ela.
Sentado, em pé, encostado, deitado, encaixotado, encaixilhado, ajoelhado, plantado, enraizado, de cócoras, ao sol, à chuva (sempre à chuva), debaixo de uma varanda, de uma árvore, em cima de um banco, de um muro, de um arbusto, de uma bola de cotão, do chão, das nuvens, debaixo da lua, dos ratos voadores, dos lampiões, em cima da relva, dos lírios do jardim, do tecto, acordado, a dormir, ensonado, descansado, agitado, a sonhar, a fugir, a roer as unhas (eu nunca roo as unhas), a comer um gelado, a fumar, a comer um chupa-chupa, a mascar uma chiclete, a morder o tempo, a cuspir para o chão, a cuspir para o ar, a trincar a raiva, a esconder o medo, a queimar neurónios, a espirrar saudade, a tossir bocados de pulmão queimado, a escrever lixo numa folha, a desenhar folhas nas paredes, a esquematizar futuros irrealizáveis, a pensar em caminhos não traçados, a equacionar saídas fechadas, a remoer o café amargo do sabor a tédio, a voar no passado, a observar os outros (e a sua imensidão inalcançável), a perder-me de propósito (eu nunca me perco), a esperar, a esperar, a esperar, a esperar que chegue alguma coisa, a esperar que eu me vá embora, a esperar que Braga se vá embora.