terça-feira, 31 de dezembro de 2013

OHQLCURNC 52 FIM.

O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Morreu. 
Fim.

OHQLCURNC 51.

O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Durante um ano, todas as semanas aconteceu-lhe a mesma coisa. Um raio na cabeça. Ninguém mais reparava, o homem sentia-se confuso a início, desesperado um pouco depois, resignado por fim. Na verdade caía e levantava-se sempre. Tirando o choque de levar com o raio, pouco mais o afectava. Quando na primeira semana, passado um ano, não levou com o raio, estranhou a situação. Na segunda e terceira sorriu aliviado, mas ainda com receio. Com o tempo reparou que lhe às vezes até tinha saudades. Ainda assim, esqueceu, como se esquecem todas aquelas coisas… 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

OHQLCURNC 50.

O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se depressa e foi a correr para casa porque se lembrou de que tinha deixado a torradeira ligada. “Deixar a torradeira ligada é um perigo” – pensou o homem. 

OHQLCURNC 49.

Passaram doze semanas desde que tinha feito o implante metálico na cabeça. Quando ia a caminhar pela rua, pensou se não seria perigoso por atrair raios. Passou os anos seguintes com medo. Até que um dia chuvoso, subindo rapidamente a rua, se deparou com um homem que ia à sua frente, a levar com um raio na cabeça. Perplexo foi ajudá-lo. O homem levantou-se e estava bem. Nunca mais temeu as tempestades. Morreu de velhice num dia de sol.

domingo, 29 de dezembro de 2013

OHQLCURNC 48.

O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Ao cair fez um barulho de silêncio. Causou mais espanto ainda quando se levantou, de pescoço erguido, como uma tartaruga que se estica ao sol, e começou a cantar com a mais bela voz do universo. Diga-se de passagem que até povos alienígenas acorreram ao local onde o homem cantava. Não cantava em nenhuma língua específica, no entanto era uma língua reconhecida por todos. Nunca mais saiu do sítio onde caiu quando levou com o raio. Uma peregrinação ao local instalou-se para o ver cantar, e toda a gente lhe levava coisas para, quando pausava um pouco, comer e beber. Filólogos tentaram decifrar a língua, musicólogos procuraram reconhecer a melodia, os alienígenas trouxeram a sua tecnologia avançada para ajudar a esclarecer estas dúvidas. Com o passar do tempo nada se esclareceu. Passou a ser conhecido como o homem do raio que cantava o silêncio. O silêncio que fez ao cair, o silêncio que todos faziam para o ouvir. 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

OHQLCURNC 47.

O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se devagar ainda meio atordoado e continuou o seu caminho ainda sem perceber bem o que lhe tinha acontecido. Pelo caminho foi ouvindo um choro, baixinho, quase surdo. Depois outro, e mais um a seguir. Pensou para si que ainda estava confuso. No dia seguinte continuou a ouvir choros por todo o lado, sem ver ninguém a chorar. Olhava em volta e só via as pessoas a andar na rua alienadas nos seus botões, umas mesmo a rir de banalidades em companhia, outras a trabalhar normalmente. O homem que levou com um raio na cabeça não sabia o que se estava a passar, de onde vinham os choros.
Com o tempo foi-se habituando e quase que podia jurar para si próprio que conseguia identificar de onde vinham os tristes lamentos, os gemidos de dor. Mas não batia certo, nada batia certo.
Concluiu, passado meses, que conseguia ouvir as pessoas chorar por dentro. A senhora do balcão do quiosque com ar de tédio, a namorada acanhada do casal no jardim, o rapaz de phones nos ouvidos na passadeira, o idoso no banco da avenida, o talhante, o alfaiate, a taxista, a florista. As crianças normalmente eram as mais sossegadas e quando choravam toda a gente ouvia. O coveiro também estava sempre silencioso.
Um dia pelo caminho perguntou ao jardineiro: “O que é que se passa? Posso ajudar?”

E o jardineiro estourou em lágrimas. E o mundo inteiro a seguir estourou em lágrimas. Todos os choros que o homem ouvia foram externalizados no espaço de minutos. Os oceanos subiram o nível e só os cumes das montanhas se mantiveram à tona. Em silêncio, em cima dos cumes das montanhas, sentados a olhar o horizonte, ficaram as crianças e o coveiro.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

OHQLCURNC 46.

Nesse dia havia no ar uma desconfiança que pairava sobre a cabeça dos habitantes da aldeia. Um mau prenúncio. A tia Arminda encostada ao beiral da sua porta espreitava o cimo da rua enquanto que com uma mão puxava os pelos do bigode. A telefonia estava, excepcionalmente nesse dia, cheia de interferências. Do outro lado da rua a tia Florinda respirava fundo à janela, desviando o olhar para a tia Arminda. Trocavam umas palavras:
- Viste o jogo ontem minha puta?
- Vi. O raio do moço nem para varrer o chão. Quem lhe disse era um bom jogador de Curling devia estar a dormir.
O tio Patinhas estava ilustrado na capa do caderno do Gertrudino que vinha a descer a rua:
- Olá tia Arminda. Boas tia Florinda. Como estão minhas vacas?
- Eu estou bem – disse a tia Arminda a coçar a barba – Estive a fazer a janta mas este ar de desconfiança aqui no ar está-me a incomodar.
- És uma incomodadinha! - retorquiu a tia Florinda – Que andas a fazer Gertrudino? Não tens que ir treinar para a final da fórmula 1?
- Tenho mas...
De repente caiu um raio na cabeça de um homem que vinha a subir a rua da aldeia. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se meio a andar ao tombos e em vez de continuar a subir a rua, voltou a descê-la.
- Este raios estão-me sempre a interromper. Raios! - indignou-se Gertrudino.
- Esquece lá isso moço. Vamos todos à tia Perpétua almoçar texugo no espeto.

Deram os três as mãos e desceram a rua rumo ao texugo de Perpétua, famoso pelos quatro cantos da aldeia.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

OHQLCURNC 45.

O homem ia a caminhar rapidamente pela rua acima e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se completamente atordoado e foi logo contar a toda a gente – espalhar aos quatro ventos, meter a boca no trombone, espalhar aos três trombonistas e soprar ventanias com a sua história. Fez correr sangue nas veias dos escritores de notícias e dos jornalistas também. Apareceu na televisão e fez alguns anúncios de rádio e aparições no cinema. Só que não era verdade. O homem não levou com raio nenhum na cabeça. Era mentira, um falso testemunho. Mas o narcisismo do homem não o permitia acreditar noutra verdade que não a sua própria mentira. Até ao dia em que se olhou ao espelho e a verdade lhe piscou o olho : “Não levaste com raio nenhum, sabes bem!”. Virou-lhe as costas e inventou que agora via o futuro nos espelhos, fruto do raio que o atingira.

Acabou a vida enrolado na mentira que criara para si próprio, mergulhado no seu próprio reflexo.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

OHQLCURNC 44.

O homem ia a caminhar rapidamente pela rua e levou com um raio na cabeça. Transformou-se em nada – não ficou invisível ou se desfez em pó – transformou-se em nada. As pessoas ao olhar para o local do estrondo nada viam e o homem nada sentia, nem consciência do raio tinha, nem do que tinha sido, nem do que era agora: nada.

Nessa semana não se passou mais nada na vida do homem, nem nada aconteceu na sua restante vida. Não se sabe quando é que esta deixou de existir por não haver provas de nada.

domingo, 24 de novembro de 2013

OHQLCURNC 43.

O homem ia a caminhar calmamente e levou com um raio na cabeça. Sentiu uma comichão, sacudiu o pó dos ombros e continuou pelo rio de lava e cobras demoníacas de oito cabeças acima como se de um Domingo de manhã se tratasse – mas não, era uma Terça-Feira de tarde!

domingo, 10 de novembro de 2013

OHQLCURNC 42.

O homem ia a caminhar rapidamente pela rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se completamente careca e com uma estranha azia. Depois de tossir violentamente vomitou uma enorme bola de pêlo…

…Ai que já estou a ver onde é que isto vai dar… o homem transformou-se num gato. Daqueles sem pêlo. Mas se é daqueles sem pêlo, como é que tinha uma bola de pêlo? Será que os gatos sem pêlo têm o mesmo hábito dos gatos peludos de se lamberem para se lavarem? Ou lambem os outros?... Tenho que ver isso na net…. CTRL-T… O que é que eu ia fazer? Ah! “Gatos Carecas” Enter. Imagens. Olha este! Vou partilhar. Que feioso coitadinho. Ora o que é que se estará a passar no facebook…


O homem levantou-se meio confuso. Tirou uma selfie e postou em todo o lado: Levei com um raio na cabeça #leveicomumraionacebeçaefiqueisempêloevomiteiumaboladepêloseráquemeestouatransformarnumgatodaquelescarecasdeixamepesquisar.

sábado, 19 de outubro de 2013

OHQLCURNC 41.

O Homem ia a caminhar no mundo e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. O desenho darwiniano sofreu um acrescento castiço que daria belas t-shirts. No entanto não sobrou ninguém para as usar.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

OHQLCURNC 40.

O homem ia a caminhar rapidamente pela rua acima e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se zangado e fumegar. No entanto note-se que o senhor não se encontrava a fumegar por ter levado com um raio, mas sim por estar profundamente zangado com tudo no mundo. Uma zanga tão profunda que o levava a destilar ódio por todos os poros. Parecia filho de uma panela de pressão. Ainda deu um chuto numa pedra, mas em vez de acalmar ficou a sentir-se pior e mais odioso. Começou a ganhar uma cor escarlate e, fumegando cada vez mais, acabou por explodir. O pasmo das pessoas na rua foi geral, principalmente das que levaram com pedaços do homem em cima. Eles, os que coiso, disseram que foram os terroristas de não sei onde por causa do medo e do ódio religiopoliticosocialculturaloqualquercoiso. Marotos mentirosos.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

OHQLCURNC 39.

O homem ia a caminhar rapidamente pela rua acima e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se cheio de si, profundamente iluminado acerca de todas as ideias. Sorriu com soberba perante os transeuntes. No fundo sentia-se o maior. Partilhava as suas ideias e lançava as suas farpas pelos meios que possuía. Havia sempre alguma reposta que lhe reforçava o comportamento, no entanto a proporção do reforço era desproporcionada à reposta que dava. Coisas do umbigo. No final não havia ninguém que o seguisse. Ecoava no vazio. Mas nunca deixou de se sentir como o homem que levou com um raio na cabeça, continuando a bradar.


domingo, 13 de outubro de 2013

OHQLCURNC 38.

Havia no céu um prenúncio de tempestade. O sol estava oculto atrás das nuvens zangadas que discutiam entre si. Secundina, a nuvem mais balofa e irascível de todas zurzia com argumentos mirabolantes e impropérios faustosos a sua colega Castorina. De tanta barafunda a segunda, não de nome, mas de ordem de evocação no texto, saiu derrotada e com uma raiva crescente dentro dela. Quando estava a flutuar em direcção a casa sozinha fartou-se e olhando para baixo escolheu um homem que ia a subir a rua muito rapidamente. Zás! Acertou-lhe com um raio na cabeça. Ficou um pouco mais aliviada, mas quanto a Secundina, esta ainda iria ouvir muitas e boas da boca dela. 

domingo, 15 de setembro de 2013

OHQLCURNC 37.

O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. O chão por sua vez sentiu-se deveras magoado. Isto tanto fisicamente, por causa do peso e da forma violenta como foi atingido, como emocionalmente porque nunca esperava que o homem lhe fizesse isso, nem levando com um raio na cabeça.
Foi uma surpresa muito desagradável para o chão que chorou um bocadinho todos os dias durante alguns meses até suprimir o trauma com outros passeios. Mesmo assim nunca mais foi o mesmo.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

OHQLCURNC 36.

O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Perdeu totalmente a vergonha. Despiu-se por completo e começou a passear nu pela cidade, a rebolar pela relva e a refrescar-se nas fontes. Deixou de querer controlar o que dizia, como se de uma criança se tratasse: “Ahah! Aquela senhora tem bigode!!”. “Aquele senhor coxo anda esquisito”. “Olá, estou profundamente apaixonado por ti, desde que te vi a primeira vez” – disse ele para a menina da caixa registadora enquanto coçava o escroto e sorria sinceramente. Vieram pouco depois apanhá-lo e levaram-no para uma instituição. Dizia sempre “Não sou eu que sou louco”. 

OHQLCURNC 35.

O homem ia a caminhar rapidamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Ficou cheio de vergonha e nunca mais saiu do buraco que se formou no chão. Passou a beber água que escorria pelas paredes e a comer uma dieta de insectos e ocasionais raízes atrevidas. Fez uma espécie de tampa para o buraco com a roupa para ninguém espreitar. A sua actividade mais comum era contar as gotas de suor que lhe caiam da testa devido à ansiedade.
Entretanto a câmara mandou alcatroar o buraco e o homem que levou com um raio na cabeça por lá ficou a comer bicharada e a beber água lamacenta.
Passados mil anos, arqueólogos do futuro escavaram o buraco e foram lá encontrá-lo. Foi nesse momento que o homem colapsou de vergonha por estar exposto à humanidade de novo.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

OHQLCURNC 34.

O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Ao cair abriu-se-lhe a mala, de onde saltaram um número interminável (para o comum mortal) de notas de todas a cores – do cinzento ao violeta passando pelo amarelo, laranja, azul, rosa, e verde – que se espalharam quase que uniformemente à volta do buraco criado pelo raio onde se encontrava deitado. Quem via de cima tinha uma imagem única e estimulante às papilas gustativas do olhar – parecia uma flor psicadélica repleta de pétalas coloridas e com um homem farrusco no meio. Passou por lá, momentos breves depois, uma mulher que apanhou a flor e a levou ao nariz. Cheirava-lhe um pouco a chamuscado mas mesmo assim não a deitou fora e colocou-a no cabelo cheio de frescos caracóis. Quando chegou à praia não se lembrou mais da flor e ao dar o primeiro mergulho nas ondas do mar imenso, perdeu-a para sempre.