quinta-feira, 17 de março de 2011

espirais de soluções

As ratazanas saíram das chávenas de chá que estavam no armário. Tomaram conta de todos os bebés enquanto os pais saíram para tomar café numa loja de rebuçados espirais. O efeito do acontecido foi inócuo. Os bebés revoltaram-se e arrancaram à dentada as orelhas das ratazanas que, infelizes e virtualmente surdas, fugiram de regresso a um mundo que nunca as acolheu. O medo do retorno plantou os pais nos cafés com raízes profundas, deixando os bebés sozinhos e gulosos de espirais em rebuçado.
Uma nave colidiu no tempo e eclodiram todas as resoluções dos problemas.

quarta-feira, 2 de março de 2011

alínea a)

Ouvi uma música de metralhadora.
O som era repetente
enfim!
Tirei restos mortais
dos ouvidos
e senti a liberdade
de estar desamparado
(como se voasse).
Caí ao
som da cascata!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

dezassete, 17

Não somos palhaços, nem renas rudolfos, nem estamos constantemente constipados. Mas temos sim uma luz vermelha na ponta do nariz. Daquelas luzinhas que indicam, como num televisor ou numa aparelhagem, o stand by: a espera.
Uns lidam melhor que os outros, mas no fundo qualquer um se irrita com isto – uma sombra no nariz como se de uma mosca se tratasse.
Há quem ignore e viva constantemente assim, a gastar energia de forma inócua.
Há quem tente enxotar distraidamente a mosca de várias formas – pode-se pintar o nariz de azul, tapar com base, colocar um penso rápido (de efeito célere), fingir de fingimento fingido que está mesmo tudo como queremos – mas a mosca regressa sempre. Pois é.
Há quem tente pegar no respectivo telecomando para acordar o dia. O problema é que este nem sempre está ao alcance. Cansa tentar chegar-lhe.
Cansa a luzinha vermelha na ponta do nariz, o stand by: a esperança.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

bolsos cheios de expectativas

Mordaz, ele bebia um gole de licor enquanto procurava onde tinha posto, dentro do bolso, as suas últimas ideias. Trazia-as perto das ideologias, num pacote pequeno de plástico que tocava Miles Davis cada vez que se abria.
Mas não sabia onde o tinha posto. Em qual dos trinta e um bolsos estava.
Entretanto o licor, de sabor ténue a álcool, terminou ficando mais uma ferida, se não curada, pelo menos desinfectada.
Sem ideias e vazio de ideologias decidiu perder a paciência e para isso mudou de bolso, sem olhar, distraindo-se com o vazio, o pacote de lã onde a guardava.
Procurou uma maçã numa boca para morder. A primeira mulher nessa situação gostou, mas preferiu regressar à maçã. Ao separarem-se tropeçou e de um dos trinta e um bolsos caiu-lhe o pacote de borracha que continha o mapa dos bolsos.
Abriu-o e, depois de analisado o mapa, redescobriu as ideias. Poderia ter posto em prática algumas delas, mas estava sem paciência para isso.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

dezasseis, 16, diz às seis

Vivemos num processo de culpa quase constante. Herança pesada da tradição.
Temo-la externa, acusatória e arranhada nas íris. Dedo apontado à cara. Confunde-nos, aborrece-nos, reformula-nos e oferece-nos um resultado palpável nas entrelinhas. Insatisfeitos satisfazemo-nos com isso e oferecemo-la de regresso aos outros - e de bom grado:
- Anda amigo; vem crescer no mundo dos grandes. Vamos todos ao Gólgota expiar os nossos pecados. Não digas que não… senão.
Ou então, coitadinhos, viramo-nos para o lado e pedimos retrocesso, sublinhados, dados estatísticos que comprovem a fórmula original:
- Anda amigo, diz-me que estou certo; que é verdade; que é sempre assim.
Depois existe a culpa interna. Irregulada pelos de fora e incontrolável por nós. Aquela menina que remói dentro do peito, o cadáver escondido nas sombras do movimento dos cabelos, o pisa-papéis coronário. Traço genético que nos faz semi-viver imbuídos no seu aroma de formol.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

a tragédia do sr. godinho

Godinho habitava entre as árvores e as rãs da floresta encantada. Todos os dias ia às amoras e às framboesas... No outono aos cogumelos.
Certo dia numa das sua caminhadas aconteceu a tragédia!!! (rufar de tambores) Apaixonou-se. E logo por quem! Pela árvore mais alta e fria da floresta.
Nunca lhe chegaria, nunca ela o conseguiria acompanhar, o papel passou a parecer-lhe mórbido e as amoras sangue.
Godinho infeliz decidiu fechar as portas do silêncio e gritar aos quatros ventos a sua tragédia. Apenas dois dos ventos o ouviram tombando a árvore em cima de Godinho.
Fertilizaram juntos a mesma terra.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

terça-feira, 9 de novembro de 2010

vaga brecha esse fuso

Existem vários elementos pretos no meu tabuleiro de xadrez. Os quadrados e as peças: O Sr. Lei, a Sra. Lainha, os Chavalos, os Bichos, as Touras e os Pinhões. Os elementos brancos são inexistentes.
Eu proponho várias vezes aos meus comparsas a criação de mais três ou quatro tipos de peças baseadas na entropia apresentada pelo movimento perene da folha da coca.
Eles preferem mascar apenas como camelos debaixo da sombra. E trazem-me por vezes, de forma bem apresentada, mulheres bonitas de seios fartos, mas rijos, com a tez brilhante da juventude, ventres lisos e sexos apetitosos.
Eu ganho-lhes sempre ao xadrez e depois vou mergulhar no mar e conversar com as gaivotas enquanto partilho com elas o salgado das ondas.
Os meus pais sempre me disseram para ter cuidado, mas eu nunca consegui deixar de ejacular perante a visão deslumbrante de um belo prato de lasanha.
Os meus chinelos, por causa disso, estão sempre cheios de areia. Guardo-os sempre cá fora quando vou pensar no xadrez.
Sob uma almofada ficam também as minhas esperanças de corroborar a existência de um cheiro que me agrade. O senhor Lei e a senhora Lainha habitam assim muito tempo dentro das minhas narinas. Evitam o cheiro de entrar.
Quando lambo as costas de uma mulher fico olfactivamente ausente pela felicidade que isso me traz. O sabor a deus é extasiante. Faz-me ganhar ao xadrez.
Procuro-me sempre nos quadrados marotos dos cocos, mas só estou aqui a morder os dedos por detrás das unhas. Pelo menos ainda sei o que me espera, e embora isso não tenha directamente a ver com marmelos rosados e carnudos, isso agrada-me sobremaneira.
Vou pintar todos os elementos do meu xadrez de preto e acabou-se.
Pranto final.

manifesto do proTeLariado


A chatice é uma pena que destila as ideias com o deslizar da tinta


Já tive mais paciência.
Agora; Hoje não. Ponto final no adiar da paciência e chafurdar no tédio do amanhã.
Façamos coisas é hoje! Porque apenas esse todo, isso é que interessa verdadeiramente.
Somo úteis e temos força e é AGORA que este combustível motriz tem que ser utilizado.
Já tive mais paciência para o discurso do “mas ai que é preciso isto e aquilo” e do “ai que eu não sei”, e do “ai que medo”, e do “agora não posso porque tenho coisas a fazer e assuntos a tratar”. Precisos somos nós! O que sabemos chega sempre para aprendermos! O medo é um menino muito mais frágil que nós! Os assuntos a tratar são só coisas de fazer entediar!
Larguemos a almofada do tédio… e hoje não é amanhã como de costume!
Já tive mais paciência para o discurso do infortúnio do destino que nos ata a as mão atrás da cabeça impedindo-nos de usar ambas: o ai que está mal; ai que me dói a cabeça; ai que seca; ai não sei; ai que se fosse assim…
Cortem-se as amarras. Que seja feita a nossa vontade transformando o mal em motivos de orgulho. Que venham os analgésicos! As pílulas da decisão!
Pois então, assim seja!
Assinemos os assins na história, não os sopremos como o fumo etéreo e efémero do tabaco.
E porque não? Porque sim. Porque podemos e isso basta. E se podemos tem que ser hoje, agora, já e aqui.

NÃO HÁ NADA MAIS IMPORTANTE PARA FAZERMOS DO QUE O QUE TEMOS PARA FAZER AGORA! ISTO MESMO

Já tive mais paciência para a revolução sonhada – des rêves, toujours des rêves - mas os sonhos são só uma treta por si só, oh sonhadores!
As realidades que fazemos deles é que interessam na luta contra o amorfo, o procrastinador, o letárgico, o comatoso que existem confortavelmente instalado dentro de nós.
Já tive mais paciência para morrer aos pequenos pedaços na lama lodosa do ai que aborrecimento hoje, amanhã resolve-se.

HOJE. AQUI. PARO COM A PACIÊNCIA TODA.

Abaixo agora o protelar.
Abaixo hoje com o protelar tudo o que queremos ser depois.
Sejamos hoje e aqui.

A revolução vai começar? Isso era antigamente!
A revolução começa agora…

A REVOLUÇÃO JÁ COMEÇOU!

Protelariados do mundo uni-vos!
Protelariados do mundo extingui-vos!
Protelariados do mundo ESCREVAM AS VOSSAS MEMÓRIAS HOJE!

Sangue de tédio sabe-me a ouro. Esta hora. Todos os dias em que o degolo à mesa, sob a nespereira do meu jardim