O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça.
Caiu como um peso morto no chão. Não se levantou imediatamente até porque levou
com outro. E em seguida com outro. Quando a chuva de raios parou conseguiram
levá-lo para o hospital. Apesar de tudo estava incólume. Depois deste episódio
e alguma atenção mediática, o homem que levou com vários raios na cabeça
continuou com a sua vida normal… até à próxima tempestade: levou com mais cinco
raios na cabeça. Não sofreu nada. Passaram a chamar-lhe Pára-raios. Não gostava
da alcunha e continuava a acreditar que era apenas um infeliz acaso. Nunca se
tinha passado nada de anormal antes do primeiro raio. Na terceira tempestade
nem quis sair de casa, mas ao espreitar na janela… outro raio! Efectivamente o
homem que levou com um raio na cabeça passou a ter a capacidade para atrair
todos os raios. Ficou a ser domínio público e embora pudesse ser utilizado como
pára-raios, a tecnologia existente permitiu-lhe não ser necessário e
esconder-se sempre que os trovões andassem no ar. Alguns chamavam-lhe Zeus, ele
gostava mais do que Pára-raios, no entanto entristecia-se na mesma por não
poder controlar nada. De resto tinha uma vida banal.
domingo, 13 de janeiro de 2013
domingo, 6 de janeiro de 2013
OHQLCURNC 1.
O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça.
Caiu como um peso morto no chão. Não ficou morto, mas um peso no peito da sua
mãe surgiu de repente. Estava a mil e quinhentos quilómetros de distância. Mesmo
assim sentiu. O homem levantou-se a seguir. Vieram a ajudá-lo e levaram-no para
o hospital onde uma panóplia de análises foi realizada. Aparentemente tudo
estava bem.
E estava. O homem que levou com um raio na cabeça ganhou no entanto uma
estranha competência. Sentia um formigueiro nos dedos sempre que ouvia música.
Já tinha mexido em instrumentos mas não sabia tocar nenhum. Começou a olhar
para uma harmónica que tinha em casa, e viu, conseguiu ver mesmo a musica a ser
reproduzida nesta. Toda a música que tinha ouvido até então. Pegou na
harmónica, cheia de pó, ex-bibelot, e deu-lhe uma razão de ser. Tocou até os
vizinhos lhe tocarem à campainha a ameaçar com a polícia. Depressa procurou
outros instrumentos e descobriu que sabia tocar tudo o que tinha ouvido até
então em todos, ressalvas feitas às incapacidades de cada um. Tocou desde
melódica até sítara, passando pela bateria e pela tuba. Era incrível. Ganhou
fama como o homem que levou com um raio na cabeça e sabia tocar todos os
instrumentos do mundo. Qualquer um que lhe trouxessem, qualquer música que lhe
pedissem, desde que o deixassem ouvir antes.
Mas, existe sempre um mas, houve um dia em que lhe pediram inocentemente
para tocar algo dele. Começou por tentar algo que desembocou numa obra que os
ouvintes desconheciam mas ele sabia que não era dele. Tentou uma segunda vez,
uma terceira e uma quarta, sempre a reproduzir. Parou a récita ali e foi para
casa preocupado.
Depois de semanas a tentar o homem que levou com um raio na cabeça
percebeu que não tinha a capacidade de criar algo novo. Era o mais exímio a
reproduzir, melhor que os melhores que treinaram toda a vida, mas não tinha a
capacidade de criar nem a menor melodia de todas.
Pesou as escolhas: perante as pressões ou contava o segredo a todos, ou
apenas a alguns que criassem para ele. Poderia manter a sua ecolalia mas sem
ninguém saber. No entanto homem que levou com um raio na cabeça não conseguia
viver na mentira e assumiu perante todos o seu psitacismo. Houve defensores e
detractores da sua causa. Uns diziam que era o maior flop de sempre, os outros
defendiam que muitos grandes interpretes ao longo da história nunca tinham
composto. Foi perdendo o interesse do grande público e os seus quinze minutos
de fama esbateram-se trocados por um miúdo que sabia todas as distâncias do
mundo.
Ainda assim continuou a trabalhar em vários locais como músico em
concertos decentes e em freak shows. No entanto sempre que havia tempestades
saia à rua com a esperança de levar com outro raio na cabeça – um que lhe desse
a capacidade de criar, ainda que lhe retirasse a de reproduzir.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
she didn't grow up
Às onze horas da manhã, estávamos
deitados na praia de nariz para o ar.
Soube
bem a areia a entrar-nos na boca, nas orelhas, no nariz, nos olhos…
Estávamos múmias desenterradas à tona do céu. O Sol sabia a Sol e ela ali sabia-o bem.
Não valia a pena continuar a esperar por melhor. Os pés no rio ganharam lodo e pareceu que de pé se estava pior – caiu.
Soube erguer-se mas não soube crescer e eu nela não cresci demais perdido em labirínticos fios de ouro e baba. Gostávamos de subir as escadas e ver o mundo à volta escasso espaço, útil inutilmente, horizonte vertical, obliquidade deferida.
O protesto saiu à rua num dia meu de espreguiçar e foram-me quebrados os caules pela causa.
Estou, agora, deitado na calçada a pensar no caminho que temos a percorrer longe um do outro e separados por uma falha negra.
O vento não se entranha, mas passa a ideia de que é difícil não lhe chegar.
Agora não há areia… Só pó a mudar a veias de toda ela.
Estávamos múmias desenterradas à tona do céu. O Sol sabia a Sol e ela ali sabia-o bem.
Não valia a pena continuar a esperar por melhor. Os pés no rio ganharam lodo e pareceu que de pé se estava pior – caiu.
Soube erguer-se mas não soube crescer e eu nela não cresci demais perdido em labirínticos fios de ouro e baba. Gostávamos de subir as escadas e ver o mundo à volta escasso espaço, útil inutilmente, horizonte vertical, obliquidade deferida.
O protesto saiu à rua num dia meu de espreguiçar e foram-me quebrados os caules pela causa.
Estou, agora, deitado na calçada a pensar no caminho que temos a percorrer longe um do outro e separados por uma falha negra.
O vento não se entranha, mas passa a ideia de que é difícil não lhe chegar.
Agora não há areia… Só pó a mudar a veias de toda ela.
sábado, 19 de maio de 2012
o ponto mais alto
Ontem subi ao topo
do ponto mais alto, aquele que ninguém sabe onde é.
De lá de cima via
tudo; de tal forma tudo que demorei muito até perceber o que era que estava à
minha frente, depois de acabar o cume e começar a escarpa.
O meu pequeno
conjunto de neurónios apenas concebia ver um espaço amplo e alargado com um pôr-do-sol
ao fundo, o verde das árvores, as linhas das estradas, o castanho da areia e o
azul do mar. Uma imagem tão banalmente bonita que a conseguia desenhar com
pedaços de outras que já antes tinha visto. Ia inspirando pelo caminho ingreme
de forma a encaixar o puzzle na minha cabeça.
Não foi bem uma
surpresa, daquelas que nos fazem libertar adrenalina e responder emocionalmente
regressando depois ao normal, que me atingiu. Foi antes uma espécie de estalada
irreversível no hipotálamo, um pontapé no sistema límbico. A verdade é que
depois de ver o que vi nada seria igual para mim, para ninguém.
Como já disse
demorei muito até conseguir percepcionar e decifrar o que se apresentava
perante aquele elevado pico – perante os meus olhos não estava o espaço que
antevi, estava antes todo o tempo, todo: o que passou desde sempre, um sempre
tão amplo que me provocou dores de cabeça e sangramento pelo nariz; o agora,
neste momento em que me encontro no cimo do topo, neste momento em que escrevo,
neste momento em que releio, neste momento em que alguém lê o que escrevi; e o
depois tão infinito como o antes, revelador de tudo em mim, em ti, em nós.
Ao olhar para a
vista do tempo apercebi-me que passaram muitos anos desde que cheguei ao topo,
que não foi ontem, embora o tenha sido, que lá tinha chegado, e que amanhã
desceria, embora muito depois de amanhã. Vivi eras estagnado no mesmo local do
topo a olhar em frente, a ver atrás, no meio e bem à frente.
Sem me mexer passei
por todo o tempo e quando pensei perceber o tudo que se me apresentava
desmaiei. Por sorte, ao cair bati com a cabeça num arbusto fofinho e não me lesionei.
Por sorte caí de costas para a escarpa do topo do ponto mais alto, aquele que
ninguém sabe onde é. Sem olhar para trás, sabendo já de antemão que era o que
faria, desci.
Sentei-me aqui em baixo
a olhar para um papel e a escrever isto. Fiz isto ontem, fiz isto hoje, no dia
em que lês, e vou fazê-lo amanhã de novo, e depois, todos os dias, para sempre.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
A minha tia, ontem à tarde, disse-me uma coisa que me deixou completamente estupefacto
Pois sim, meus
caros, agora que já consegui a vossa coscuvilheira atenção, tenho-vos a indicar
o caminho da salvação, a epifania luminosa da redenção…
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Muro
I
Pasmem-se!
As virtudes foram roubadas
E levadas nas asas de palha dum
Porta-retratos
Fecha-portas
Repórter-chato
Porta-chaves.
Agora os
Descontos vêm em fila.
Comprem a últimas braceletes
Luminosas vendidas nos corações
(antigamente eram os outros
que rebolavam alarmando o mar
de que vinha aí o Verão
com os seus caprichos)
Pois fiquem sabendo
Que nunca mais!
__________________________________
Definição de pulga:
Um cisco que nos
penetra a vida em
forma de bola de neve
tilintando como um sino
__________________________________
Procurem outras razões
para esta loucura.
É impossível continuar
o movimento.
Comam os joelhos
das joaninhas virgens
e
oiçam o ruído
do telhado quando a chuva
se mantém suspensa!
(podemos encontrar outros caminhos
em pacotes de açafrão,
no entanto seria incómodo
e anti-ético
não entregarmos
as nossas filhas)
II
Admirem-se!!
Ninguém sabe o caminho
Até ao fim da estrada.
(ontem chovia, anteontem estava
nevoeiro, hoje não está,
amanhã está longe)
Por isso
o melhor é perdermo-nos
o mais possível.
___________________________________
Definição de indefinição:
Ver antes. Algarve.
Guadalquivir.
___________________________________
Entreguem os cestos
aos cobradores
de IRS cobertos
de doce de melão
com capas negras
e bolinhas de cerveja.
(vistam os casacos,
encarnem cossacos,
cortem as unhas,
e peçam a última peça).
___________________________________
Atchim – Santoinho
Carnaval
Ponto
_____________________________________
Assim terminamos
E comuniquem uns aos outros
o
sol e a Somália
em cima da peúga careca.
(Sim, outra vez seria um pouco
diferente)
quinta-feira, 5 de abril de 2012
23, vinte e três, ou a tragédia do senhor, ou adeus
Lembro-me que estava uma vez numa
paragem de autocarro, à espera do dito, e aperceber-me de que deus não existia.
Não foi algo que me veio à memória por
causa de uma raiva pontual, contra o atraso do transporte público, nem mesmo
crónica, contra as injustiças sociais e os percalços da vida em geral.
Suponho que estava a fumar. Ou talvez
não. Era noite e devia ser outono: um frio fraco. Estava a olhar para o monte
ou para o céu à minha frente e conclui calmamente que deus não existia. Nunca
existiu. Odeio profundamente sentir pena e senti nesse momento pena de mim por
ter achado em tempos que sim.
Já era ateu há algum tempo, afinal tinha
decidido isso quando fiz o crisma e ao invés de alinhar com o seu verdadeiro
propósito, divorciei-me finalmente da igreja romana e afins. Nunca me pus com
ideias globais de crer em mitologias exóticas importadas. Continuei e continuo
a gostar, mesmo a preferir, a Páscoa e a época envolvente: a Braga púrpura e a
metáfora do ressuscitar do Homem. Quase toda a gente me acha estranho por isso
e argumenta a favor do natal, do carnaval do equinócio de outono e até mesmo do
dia internacional da psoríase, mas eu não quero saber, gosto mesmo é da Páscoa.
Ainda assim tornei-me um céptico devido
à informação que tira a virgindade da inocente ignorância e sem saber como, nem
porquê, nunca antes me tinha lembrado deste facto. A verdade é que, factos e
teorias à parte, senti ainda mais pena de mim por estar sozinho, por
continuamente falar sozinho sem mesmo ninguém ouvir. Por não ir a lado nenhum,
por não ninguém me acolher e principalmente por não ser nada que possa ser
acolhido após a desconsciência da morte.
Desporto radical este de ser agnóstico.
Senti-me desamparado, equilibrista sem rede e atirar-me sem pára-quedas.
Foi triste admito.
Mas nem por isso decidi ir a pé a
equacionar as coisas, a apanhar ar e a pensar de onde vinha esta percepção e
para onde ia a percepção de mim/mundo. Passou-me depressa e sorri internamente.
Era verdade, deus não existia, mas não fazia mal. Não foi um cataclismo, nem
tão pouco uma revelação inesperada – foi apenas o desvendar de um algo que
apenas o era. E é.
Tem-me sido possível viver assim. Por
vezes preferia saber coisas que não sei e muitas mais vezes preferia não saber
quase nada do que sei. Viver no quentinho da companhia guarda-chuva invisível.
Sempre preferi fumar à chuva.
quarta-feira, 28 de março de 2012
elipses
Sonhei esta noite
que a tua casinha velha estava abandonada e reduzida metade do seu tamanho a
armazém dos vizinhos. A mesma casinha com que tinha sonhado uns anos antes,
aquela que ficava num largo de casinhas baixinhas para onde se entrava por
debaixo do único prédio alto. Sonhei que desse prédio alto saiam senhoras, com os
seus mochos, a cantar concertadas todas à mesma hora, sincronizadas com os
animais. Depois saíam a voar pela janela, tanto as senhoras como os mochos, e
só se tinha que ter cuidado com as bombas intestinais dos pássaros. E iam por
outros túneis para outras ruelas e larguinhos.
Nesse largo havia
ainda, mais ou menos do lado esquerdo, quem esta de frente para o corrente da
tua casa velha, um portão velho e alto, fechado para as crianças não saírem no
recreio; do outro lado do portão ficava África e fazia-me confusão as crianças
não poderem ir lá.
No lado
diametralmente oposto à casa ficava o cemitério fechado, viam-se umas campas
velhas, com letras apagadas lá dentro. Ao dado esquerdo do portão ferrugento do
cemitério estava, como sempre, o único apontamento histórico do largo, a janela
gótica, baça e decadente como o tempo.
Quando sai do largo,
depois de olhar para a tua velha casinha e me lembrar do que lá tínhamos passado
fui a uma loja de brinquedos, peguei numa besta azul e vermelha e disparei a
seta que estava engatada com uma rolha na ponta, depois de tirar a rolha.
Vieram atrás de mim, mas não me apanharam porque os consegui enganar com um
ardil de criança.
Sonhei com isto tudo
e acordei triste por não te ter visto no sonho, por não te reconhecer senão na tua
ausência presente.
Talvez daqui a uns
meses regresse e a casa esteja de pé contigo lá dentro à minha espera como
antes; os mochos usem mini fraldas para aves; o portão para África possa ser
aberto finalmente; a janela recupere a sua glória; e a seta disparada pela
besta consiga atingir o seu destino. Talvez me apanhem finalmente nesse sonho.
terça-feira, 13 de março de 2012
22, vinte e dois - ou a má disposição ou o bilhete só de ida
A triste cidade sai à rua todos os dias
dentro de mim. Acorda bem cedo, pelas 6 da manhã para fazer as orações
primeiras, ajoelhada contra as minhas costelas. Depois de se queixar de quão
aborrecida é dirige-se lenta, em pé, comichosa num movimento repetido e
autómato como se de ocupada se tratasse, revolve-me as entranhas estagna na
estupidez da catatonia e sorri para o amarelo dos dentes do tempo e da partilha
estapafúrdia do vácuo, provoca-me cólicas dolorosas. Regressa, desloca-se às
orações do meio-dia, ora em pé ora em comunhão e vê de olhos fechados, causa-me
prurido na pele, algum mas profundo.
Retorna sem gás ao automatismo e ao
estupor desanimado, com ânsias de orar à bola, orar ao novelo de fios de merda,
de orar ao caralho que a foda, sem sucesso, provoca-me um refluxo gástrico
violento e violeta à boca. Enfim consegue libertar-se das amarras para se
dedicar ao marasmo, sempre e sem excepção, consegue orar a metade do que
planeou e satisfaz-se de barriga vazia por que sonhou ver luzes no meio do triste
cinzento, porque pareceu-lhe sentir formas no plano cimento, porque lhe deu a
impressão de ter ouvido música no ruído de esterco seco que lhe entrou nos
ouvidos, porque com nada ou um misto de nada com o inútil lhe pareceu que orou
o suficiente, a cidade, a mim fez-me vomitá-la.
De fora de mim engoliu-me porque eu sou
uma besta e deixei.
Saio agora todos os dias pela triste
cidade, triste a esmurrar-lhe as costelas, fazê-la estrebuchar, vomitar, ganhar
pruridos... e ou acorda um dia da tristeza, ou me vomita de vez - para eu nunca
mais a engolir.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Como sempre
Tinha um bocado de
vento nos meus olhos. Tentei soprá-lo mas só consegui piorar a situação. Grave
portanto. Com isto encaminhei-me às apalpadelas à procura da saída. Fui contra
um vidro lambido e senti-me mais patético do que o costume. Depois de alguns
desvios intuitivos que me restauraram a confiança caí, caí como se num abismo
me afundasse, durante horas de aflição e desassossego. Coração na boca, pulmões
vazios, cabeça a andar à roda. Toda esta inquietude secou-me até às lágrimas,
conseguindo assim limpar o vento nos meus olhos. Vi novamente, constatei onde
estava. Levantei-me estóico, peito feito e orgulho redobrado pela
sobrevivência, e saí com os olhos no fogo, lá fora, à minha frente. À minha
espera.
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