domingo, 10 de março de 2013

OHQLCURNC 10.


O homem ia a caminhar acelerado pela rua acima e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se devagar… em câmara lenta como nos filmes. Do chão quente elevava-se algum vapor, ou melhor, fumo que fazia lembrar vapor. Sentiu-se estranho, mas magnifica. O homem que levou com um raio na cabeça reparou então que tinha algo no peito. Colocou as mãos e constatou que tinha agora seios, dois voluptuosos e frescos seios. No meio do espanto perdeu algum tempo a apalpá-los. Lembrou-se então de um pormenor, desceu uma mão e depressa se convenceu do que tinha passado. 
Era agora uma mulher (e não, não se chamava Orlando). Decidiu continuar acelerada no sentido contrário para onde ia, rua abaixo. Entrou em casa e depois de acalmar a primeira coisa que se apercebeu foi que que podia ter filhos. Antes também podia, mas agora podia criar vida dentro dela. É verdade que ia receber menos dinheiro no trabalho (são factos, as mulheres em média recebem menos ordenado que os homens), mas a mudança provocada pelo raio desenhou-se-lhe risonha. Em meia hora para além da aparência física, o homem que levou com um raio na cabeça era uma mulher feita também em toda a forma de pensar e sentir e ser.   
E na verdade durante o resto da sua vida foi uma excelente mulher, daquelas mesmo excelentes, como as nossas mães e avós e irmãs e namoradas e primas e tias e amigas.

domingo, 3 de março de 2013

OHQLCURNC 9.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se metamorfoseado em uma arma de fogo. Não se deixou ir abaixo com isso. Aproveitou na mesma e disparou até ao último dos cartuchos que tinha.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

OHQLCURNC 8.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se, ou melhor, levantaram-se três homens iguais… quase iguais. Três partes do mesmo homem. Entreolharam-se durante um momento e depois viraram costas.
Um dirigiu-se para Norte. Ajudou uma idosa a atravessar a rua e um invisual a apanhar o autocarro. Seguiu uma vida de boas acções, esteve em organizações não-governamentais e lutou pelos direitos humanos, dos animais, contra a fome e contra a pobreza. Foi admirado por todos os que o conheciam e o seu trabalho teve impacto sobre um grande número de pessoas. Não se tornou famoso, mas foi feliz assim.
Outro foi para Oeste, e pregou imediatamente uma rasteira a um coxo e roubou o telemóvel a duas crianças. Durante a sua vida enganou quem pode, roubou sempre que teve oportunidade, manipulou, maltratou, bateu e cuspiu sempre que possível. Subiu a um cargo qualquer de respeito na sociedade que lhe permitiu uma melhor exploração desta. Só quem o não conhecia verdadeiramente podia ter uma boa opinião dele. Os restantes não o gramavam mas tinham-lhe medo. A sua índole de tendência para a atrocidade retraia os opositores. Obviamente ficou famoso, com direito a estátua e nome de rua, e foi, com isso, muito feliz.
O terceiro homem não se mexeu. Ficou inerte e com uma expressão vazia no rosto. Passou toda a sua vida no mesmo local. Embora não transparecesse, interiormente pensava indeciso nas opções que tinha pela frente e decidia-se constantemente que nenhuma valia a pena. As pessoas reconheciam-no como o homem parado no mesmo local. Não se pode dizer que tenha sido feliz, mas infeliz também não aparentava ser. Por dentro sentia apenas que era, por fora não parecia ser nada.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

OHQLCURNC 7.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se com o peso da responsabilidade do mundo nas costas. Pai de mil filhos, órfão de mil pais. Não teve medo. Olhou em frente e seguiu. Ninguém reparou… ninguém nunca repara nestas coisas.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

OHQLCURNC 6.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se devagar, com um cheiro a farrusco a entrar-lhe pelas narinas e uma sensação estranha de animação. Sentia-se vivo e colorido. Olhou para o seu reflexo numa montra de uma loja de electrodomésticos e verificou que efectivamente estava com o cabelo no ar e a cara toda encarvoada, no entanto todo restante corpo brilhava de vivacidade. Sacudiu e cabeça e, ao mesmo tempo que se ouviu um ruído de todos nós conhecido, ficou imediatamente penteado e composto, depois de uma nuvem de pó preto assentar. O homem tinha-se transformado num desenho animado – a cores! O espanto dele foi de um a naturalidade inerente a este tipo de personagens, ainda assim o mesmo não se pode dizer dos transeuntes que pelo local passavam.
Como qualquer desenho animado que se preze o homem começou a planar no ar, ao mesmo tempo que os pés começaram a descrever uma roda com uma nuvenzinha branca. Daí pisgou-se a toda a velocidade para casa para ver a família.
Como é óbvio nunca mais o deixaram em paz. Afinal era o primeiro desenho animado vivo, como nos filmes, mas em vida real. Capaz do impossível! Apesar de não conseguir ser omnipresente conseguiu, com a simplicidade dos desenhos animados, resolver várias questões mundiais, sendo considerado um herói.
A esposa divorciou-se por causa as suas características peculiares, no entanto pretendentes não lhe faltaram. Ele tendencialmente desprezava as que pretendiam parecer a Jessica Rabit e procurava entre as mais sinceras. Os filhos admiraram-no sempre, mas a partir de certa idade deixaram de o levar a sério.
Com o tempo reparou na sua imortalidade, embora não perdesse nunca a sua actualidade. Inicialmente temia as borrachas, correctores e outro tipo de abrasivos e tintas, mas foi nestes que passados muitos milhares de anos de animação, encontrou a sua redenção. No fundo nunca mais ninguém o viu, ainda assim ninguém sabe precisar se efectivamente deixou de existir.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

OHQLCURNC 5.


O homem ia a caminhar rapidamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se muito lentamente com um zumbido crescente na cabeça. As pessoas foram-se aproximando e o homem só ouvia um barulho que identificava como white noise, mas um white noise diferente, com gradações, como se fosse houvesse um emissor mais próximo e outro mais longe, ou mil emissores mais próximos e mil emissores mais longe. Não conseguia ouvir nada do que lhe diziam, nem no local, nem depois no hospital. Percebeu que os médicos o percebiam e também conseguiu, compreender, sem ouvir, quando lhe diziam que a sua audição estava normal aparentemente. Não tinha tido nenhuma alteração física com o raio que lhe caiu na cabeça. O homem ficou muito pouco descansado porque em nenhum momento o ruído parou.
Passou os tempos seguintes assim… depois de uma semana de insónia reparou num pormenor – de facto quando tapava os ouvidos ouvia menos. O ruído afinal parecia vir de fora de si e não de um mal funcionamento interno qualquer. Passou a dormir com vários tipos de abafadores de som acumulados, desde os internos bocados de silicone até abafadores industriais. Conseguiu alguma paz, no entanto não conseguia nunca ouvir as pessoas.
Com o passar dos meses foi aprendendo linguagem gestual para poder ultrapassar a sua surdez induzida, pois muito raramente tirava os abafadores. Mesmo assim, às vezes, quando estava sozinho à janela fazia-o para tentar escrutinar o que escutava.
Que ruído em camadas era aquele, que vinha de longe e vinha de perto? Um amigo romântico sugeriu-lhe que ele ouvia as estrelas. Explorou esta ideia em algumas entrevistas que deu e chegou mesmo a ser contactado por especialistas. Ainda assim sem grande crença na coisa. Outra teoria que alguns defendiam referia que podia ter sido um raio divino a acertar-lhe e como tal, o homem que levou com um raio na cabeça, ouvia os anjos nos céus a cantar. Nesta descria completamente.
Passaram-se anos e o público esqueceu a história. Os mais próximos já tinham parado de inventar razões. Os vizinhos só conheciam o homem por ser o homem que tinha abafadores na cabeça. O homem apesar de nunca ter soçobrado ao desespero e ter levado uma vida normal do incidente em diante, nunca esqueceu a sua condição de ouvinte de um algo especial.
Nunca descobriu que o que ouvia eram todas as folhas a cair, todas de todas as árvores, todo o tipo de árvores e plantas que têm folhas que caem, em todo o mundo, todo o dia, toda a noite, todas as folhas, as de perto, na mesma rua e as de longe, no outro lado do planeta. O som das folhas a cair. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

OHQLCURNC 4.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se imediatamente e começou a ver a vida dela andar para trás. Mesmo a andar para trás. No verdadeiro sentido da palavra, literalmente, levantou-se e começou a andar para trás e a desfazer tudo o que tinha feito. E com consciência disso. “Pensava que eu não tinha feito nada” – dizia para consigo a par que ia subindo e descendo elevadores, apagando documentos escritos, desconhecendo pessoas e o seu mais despreferido: desfodendo. Aparentemente o descoito é uma experiência mesmo entristecedora. Desamou pelo caminho e foi encolhendo e perdendo conhecimentos. Acabou no ventre materno a perder células até se desmembrar em duas e perder a consciência.

domingo, 20 de janeiro de 2013

OHQLCURNC 3.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Não se levantou imediatamente. Acordou um dia depois no mesmo sítio com uma estranheza no corpo. Não uma estranheza física por alguma mazela causada pelo raio, mas uma estranheza interior, sentida profundamente. Levantou-se e continuou a caminhar sem saber para onde. Ia identificando devagarinho o que sentia. Era uma espécie de vazio, de quem está à espera. Sentiu-se expectante. Mas não sabia de quê. Já tinha sentido isto mais vezes, à espera de um autocarro, de um evento ou de alguém. Só que desta vez não tinha nada combinado. Mas esperava saber o que estava à espera.
Andou assim durante dias até que reparou que algo de incomum se passava. Na verdade tinha levado com um raio na cabeça e sobrevivido, o que por si só já não é normal. A espera mantinha-se dentro dele e tinha-lhe toldado os sentidos. Durante esse tempo passado não tinha estado com ninguém. Tinha estado sempre sozinho. Saiu à rua e verificou que não havia ninguém. Começou a perceber que o que esperava era encontrar alguém. 
Fixou-se nesse objectivo e andou por todo o lado em todo o mundo procurando, mas mais especialmente esperando encontrar alguém. 
De toda esta solidão por várias vezes decidiu acabar com tudo. Mas o seu sentido de moral não lho permitia – enfim, tinha sobrevivido a um raio na cabeça no mesmo momento em que todos deixaram de existir, seria uma afronta não se considerar o mais miserável dos afortunados. 
A unicidade não lhe agradava e partir de certa altura passou a esperar apenas que tudo acabasse. Viveu mais que Matusalém, sempre, sempre expectante. Depois apagou-se, como um raio que cai e apaga a luz num quarteirão, só que não foi apenas num quarteirão, foi em todo o lado para sempre. Apagou-se a espera, a esperança e tudo.

domingo, 13 de janeiro de 2013

OHQLCURNC 2.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Não se levantou imediatamente até porque levou com outro. E em seguida com outro. Quando a chuva de raios parou conseguiram levá-lo para o hospital. Apesar de tudo estava incólume. Depois deste episódio e alguma atenção mediática, o homem que levou com vários raios na cabeça continuou com a sua vida normal… até à próxima tempestade: levou com mais cinco raios na cabeça. Não sofreu nada. Passaram a chamar-lhe Pára-raios. Não gostava da alcunha e continuava a acreditar que era apenas um infeliz acaso. Nunca se tinha passado nada de anormal antes do primeiro raio. Na terceira tempestade nem quis sair de casa, mas ao espreitar na janela… outro raio! Efectivamente o homem que levou com um raio na cabeça passou a ter a capacidade para atrair todos os raios. Ficou a ser domínio público e embora pudesse ser utilizado como pára-raios, a tecnologia existente permitiu-lhe não ser necessário e esconder-se sempre que os trovões andassem no ar. Alguns chamavam-lhe Zeus, ele gostava mais do que Pára-raios, no entanto entristecia-se na mesma por não poder controlar nada. De resto tinha uma vida banal.

domingo, 6 de janeiro de 2013

OHQLCURNC 1.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Não ficou morto, mas um peso no peito da sua mãe surgiu de repente. Estava a mil e quinhentos quilómetros de distância. Mesmo assim sentiu. O homem levantou-se a seguir. Vieram a ajudá-lo e levaram-no para o hospital onde uma panóplia de análises foi realizada. Aparentemente tudo estava bem.
E estava. O homem que levou com um raio na cabeça ganhou no entanto uma estranha competência. Sentia um formigueiro nos dedos sempre que ouvia música. Já tinha mexido em instrumentos mas não sabia tocar nenhum. Começou a olhar para uma harmónica que tinha em casa, e viu, conseguiu ver mesmo a musica a ser reproduzida nesta. Toda a música que tinha ouvido até então. Pegou na harmónica, cheia de pó, ex-bibelot, e deu-lhe uma razão de ser. Tocou até os vizinhos lhe tocarem à campainha a ameaçar com a polícia. Depressa procurou outros instrumentos e descobriu que sabia tocar tudo o que tinha ouvido até então em todos, ressalvas feitas às incapacidades de cada um. Tocou desde melódica até sítara, passando pela bateria e pela tuba. Era incrível. Ganhou fama como o homem que levou com um raio na cabeça e sabia tocar todos os instrumentos do mundo. Qualquer um que lhe trouxessem, qualquer música que lhe pedissem, desde que o deixassem ouvir antes.
Mas, existe sempre um mas, houve um dia em que lhe pediram inocentemente para tocar algo dele. Começou por tentar algo que desembocou numa obra que os ouvintes desconheciam mas ele sabia que não era dele. Tentou uma segunda vez, uma terceira e uma quarta, sempre a reproduzir. Parou a récita ali e foi para casa preocupado.
Depois de semanas a tentar o homem que levou com um raio na cabeça percebeu que não tinha a capacidade de criar algo novo. Era o mais exímio a reproduzir, melhor que os melhores que treinaram toda a vida, mas não tinha a capacidade de criar nem a menor melodia de todas.
Pesou as escolhas: perante as pressões ou contava o segredo a todos, ou apenas a alguns que criassem para ele. Poderia manter a sua ecolalia mas sem ninguém saber. No entanto homem que levou com um raio na cabeça não conseguia viver na mentira e assumiu perante todos o seu psitacismo. Houve defensores e detractores da sua causa. Uns diziam que era o maior flop de sempre, os outros defendiam que muitos grandes interpretes ao longo da história nunca tinham composto. Foi perdendo o interesse do grande público e os seus quinze minutos de fama esbateram-se trocados por um miúdo que sabia todas as distâncias do mundo.
Ainda assim continuou a trabalhar em vários locais como músico em concertos decentes e em freak shows. No entanto sempre que havia tempestades saia à rua com a esperança de levar com outro raio na cabeça – um que lhe desse a capacidade de criar, ainda que lhe retirasse a de reproduzir.