domingo, 14 de abril de 2013

OHQLCURNC 15


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se com uma sensação estranha de que era eu. Não sei se estão a ver qual é? Eu pelo menos acordo todos os dias assim… e a maior parte deles vou dormir sem me livrar dela.
Foi isso que passou a acontecer todos os dias ao homem que levou com o raio na cabeça. No início fazia-lhe confusão não se sentir como ele próprio, mas como eu. Apesar de todas as idiossincrasias que ser eu acarreta, o homem conseguiu adaptar-se. Ainda teve fases em que se meteu no álcool e nas drogas pesadas; fugiu em viagens termináveis mas longas; passou pelas religiões todas de joelhos em pé ou de pernas cruzadas. Tudo para ver se esquecia a sensação mas o resultado era muito momentâneo e por vezes com sequelas desagradáveis.
A dada altura resignou-se e deixou de lutar contra mim próprio, ou a sensação de mim próprio melhor dizendo... E a partir daí as coisas começaram a correr bem.
Um dia destes faço como ele!

domingo, 7 de abril de 2013

OHQLCURNC 14.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Veio logo uma ambulância buscá-lo. No meio da viagem foi acordando e ouviu umas frases suspeitas: Foi uma falha técnica; O sistema mediu mal as coordenadas; Não era suposto isto ter acontecido; Vamos ser todos despedidos se ele não aguenta.
Acordou ao fim da tarde na cama do hospital rodeado de familiares com um ar aliviado. Sentiu-se reconfortado mas uma frase de um primo deixou-o com a pulga atrás da orelha: Continua a festa.
Recuperou e continuou a sua vida normalmente. No entanto foi ruminando desde início o que tinha ouvido. Passou a acreditar que algo se passava. Que era especial e de alguma forma vigiado. Que a vida dele fazia depender dele todas as pessoas no mundo. Sentiu-se um messias, mas ao mesmo tempo, a sua tendência para a introversão não lhe permitia partilhar nenhuma destas ideias com ninguém.
Manteve neste limbo. Com a crença de que estava a ser constantemente vigiado passou a não fazer determinadas coisas que fazia antes: cantar no banho, falar sozinho, masturbar-se, escarafunchar o nariz, observar os poios que libertava ao mundo, olhar para os decotes e pernas que deambulavam pela sua frente, e mais todas essas coisas que tu fazes mas não queres que ninguém saiba.
Poucos meses depois entrou num convento (embora não tenha encontrado a fé no deus dos seus parceiros de mosteiro, a sua fé na vigia que tudo sabe levou-o a esta opção) e viveu uma vida de monge silencioso até ao fim dos seus dias. 

domingo, 31 de março de 2013

OHQLCURNC 13.


O homem ia a caminhar calmamente na rua, com um saco de biscoitos boa nova na mão esquerda, e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Ficou em coma durante três dias, tendo acordado em excelentes condições a meio do terceiro. Toda a gente achou curiosa a história do portador da boa nova e houve mesmo quem aproveitasse a oportunidade para fazer negócio: começaram a produzir e vender uns pequenos raios de colocar ao peito, raios para colocar na parede a enfeitar e mesmo raios com íman para colocar no automóvel. Foi uma moda intensa mas não durou muito mais que um par de milhares de dias.

domingo, 24 de março de 2013

OHQLCURNC 12.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se atordoado com uma sensação de afastamento da realidade. Na verdade, não reparou logo, mas desde que se levantou nunca mais tocou no chão. Começou por flutuar dois ou três milímetros. No dia seguinte reparou já estar dois centímetros afastado do chão. Com o esforço de quem mergulha ainda conseguia sentir a Terra, mas nem por isso se mantinha preso a ela como antes.
Os médicos começaram a elaborar teorias como sempre, mas não havia nenhuma explicação aceitável. Passado um mês o homem que levou com um raio na cabeça já andava a um metro e meio do chão. Várias soluções foram procuradas, como atá-lo a uma cadeira, ou colocar bolas de chumbo atadas às pernas. Tal como o mergulho no início funcionava, mas depois voltava à tona… e sem qualquer dificuldade ou dor flutuava com os pesos agarrados a ele.
O que a princípio o confundia e preocupava, depressa lhe passou a parecer normal e banal. Dormia colado ao tecto e depois por cima do telhado da sua casa. Concluiu consigo mesmo que estava a rejeitar o planeta. Não lhe era uma ideia nova, já antes de levar com o raio essas ideias lhe tinham cruzado o pensamento.
A partir dos dezoito metros de afastamento a atenção das outras pessoas começou a esmorecer. Foi ficando abandonado pelo ar. Ia caminhando como se o fizesse pelas nuvens. Aos sete meses tinha saído da atmosfera da Terra. Sentiu-se grande comparado com o gigante azul à sua frente. Num ano já se encontrava fora do sistema solar. Em dois anos fora da galáxia. Até que parou.
Parou num ponto neutro e afastado de forma igual de todos os outros pontos do universo. A partir daí esboçou um sorriso que ninguém viu, mas que nunca mais lhe saiu da cara. Começou a atrair poeira cósmica e outros pedaços de matéria flutuante que passavam por perto. Até que á sua volta se formou um enorme cometa. Quando já tinha o tamanho da lua o homem decidiu-se e arrancou a toda a velocidade de volta à Terra…

segunda-feira, 18 de março de 2013

OHQLCURNC 11.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. De forma imediata transformou-se numa poça de muco. Uma poça de muco que não era uma qualquer. Uma poça de muco translúcida, tanto por ser transparente como por ser para lá de lúcida: omnisciente. Mesmo muito omnisciente. Tanto que sabe perfeitamente que neste momento estás a ler esta frase. E o que fizeste antes e o que vais fazer mais logo.
Ou então não era propriamente omnisciente porque lhe faltava saber uma coisa. De qualquer forma sabia que no parágrafo anterior eu iria aplicar o adjectivo erroneamente. E o que não sabia era como comunicar tudo o que sabia aos transeuntes. 
A única forma de transmitir algo era fazendo bolhinhas – bloop bloop. E assim o fez quarenta e duas vezes. 
As pessoas só acharam aquela visão bastante nojenta e no dia seguinte veio uma máquina da câmara municipal limpar a poça de muco que estava no meio da rua.

domingo, 10 de março de 2013

OHQLCURNC 10.


O homem ia a caminhar acelerado pela rua acima e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se devagar… em câmara lenta como nos filmes. Do chão quente elevava-se algum vapor, ou melhor, fumo que fazia lembrar vapor. Sentiu-se estranho, mas magnifica. O homem que levou com um raio na cabeça reparou então que tinha algo no peito. Colocou as mãos e constatou que tinha agora seios, dois voluptuosos e frescos seios. No meio do espanto perdeu algum tempo a apalpá-los. Lembrou-se então de um pormenor, desceu uma mão e depressa se convenceu do que tinha passado. 
Era agora uma mulher (e não, não se chamava Orlando). Decidiu continuar acelerada no sentido contrário para onde ia, rua abaixo. Entrou em casa e depois de acalmar a primeira coisa que se apercebeu foi que que podia ter filhos. Antes também podia, mas agora podia criar vida dentro dela. É verdade que ia receber menos dinheiro no trabalho (são factos, as mulheres em média recebem menos ordenado que os homens), mas a mudança provocada pelo raio desenhou-se-lhe risonha. Em meia hora para além da aparência física, o homem que levou com um raio na cabeça era uma mulher feita também em toda a forma de pensar e sentir e ser.   
E na verdade durante o resto da sua vida foi uma excelente mulher, daquelas mesmo excelentes, como as nossas mães e avós e irmãs e namoradas e primas e tias e amigas.

domingo, 3 de março de 2013

OHQLCURNC 9.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se metamorfoseado em uma arma de fogo. Não se deixou ir abaixo com isso. Aproveitou na mesma e disparou até ao último dos cartuchos que tinha.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

OHQLCURNC 8.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se, ou melhor, levantaram-se três homens iguais… quase iguais. Três partes do mesmo homem. Entreolharam-se durante um momento e depois viraram costas.
Um dirigiu-se para Norte. Ajudou uma idosa a atravessar a rua e um invisual a apanhar o autocarro. Seguiu uma vida de boas acções, esteve em organizações não-governamentais e lutou pelos direitos humanos, dos animais, contra a fome e contra a pobreza. Foi admirado por todos os que o conheciam e o seu trabalho teve impacto sobre um grande número de pessoas. Não se tornou famoso, mas foi feliz assim.
Outro foi para Oeste, e pregou imediatamente uma rasteira a um coxo e roubou o telemóvel a duas crianças. Durante a sua vida enganou quem pode, roubou sempre que teve oportunidade, manipulou, maltratou, bateu e cuspiu sempre que possível. Subiu a um cargo qualquer de respeito na sociedade que lhe permitiu uma melhor exploração desta. Só quem o não conhecia verdadeiramente podia ter uma boa opinião dele. Os restantes não o gramavam mas tinham-lhe medo. A sua índole de tendência para a atrocidade retraia os opositores. Obviamente ficou famoso, com direito a estátua e nome de rua, e foi, com isso, muito feliz.
O terceiro homem não se mexeu. Ficou inerte e com uma expressão vazia no rosto. Passou toda a sua vida no mesmo local. Embora não transparecesse, interiormente pensava indeciso nas opções que tinha pela frente e decidia-se constantemente que nenhuma valia a pena. As pessoas reconheciam-no como o homem parado no mesmo local. Não se pode dizer que tenha sido feliz, mas infeliz também não aparentava ser. Por dentro sentia apenas que era, por fora não parecia ser nada.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

OHQLCURNC 7.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se com o peso da responsabilidade do mundo nas costas. Pai de mil filhos, órfão de mil pais. Não teve medo. Olhou em frente e seguiu. Ninguém reparou… ninguém nunca repara nestas coisas.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

OHQLCURNC 6.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se devagar, com um cheiro a farrusco a entrar-lhe pelas narinas e uma sensação estranha de animação. Sentia-se vivo e colorido. Olhou para o seu reflexo numa montra de uma loja de electrodomésticos e verificou que efectivamente estava com o cabelo no ar e a cara toda encarvoada, no entanto todo restante corpo brilhava de vivacidade. Sacudiu e cabeça e, ao mesmo tempo que se ouviu um ruído de todos nós conhecido, ficou imediatamente penteado e composto, depois de uma nuvem de pó preto assentar. O homem tinha-se transformado num desenho animado – a cores! O espanto dele foi de um a naturalidade inerente a este tipo de personagens, ainda assim o mesmo não se pode dizer dos transeuntes que pelo local passavam.
Como qualquer desenho animado que se preze o homem começou a planar no ar, ao mesmo tempo que os pés começaram a descrever uma roda com uma nuvenzinha branca. Daí pisgou-se a toda a velocidade para casa para ver a família.
Como é óbvio nunca mais o deixaram em paz. Afinal era o primeiro desenho animado vivo, como nos filmes, mas em vida real. Capaz do impossível! Apesar de não conseguir ser omnipresente conseguiu, com a simplicidade dos desenhos animados, resolver várias questões mundiais, sendo considerado um herói.
A esposa divorciou-se por causa as suas características peculiares, no entanto pretendentes não lhe faltaram. Ele tendencialmente desprezava as que pretendiam parecer a Jessica Rabit e procurava entre as mais sinceras. Os filhos admiraram-no sempre, mas a partir de certa idade deixaram de o levar a sério.
Com o tempo reparou na sua imortalidade, embora não perdesse nunca a sua actualidade. Inicialmente temia as borrachas, correctores e outro tipo de abrasivos e tintas, mas foi nestes que passados muitos milhares de anos de animação, encontrou a sua redenção. No fundo nunca mais ninguém o viu, ainda assim ninguém sabe precisar se efectivamente deixou de existir.