segunda-feira, 3 de junho de 2013

OHQLCURNC 22.

Acordou com o despertador às sete e trinta. Ouviu a chuva lá fora enquanto reparava que tinha a boca seca. Levantou-se calçou umas meias, vestiu a camisa e as calças e colocou os suspensórios. Abriu a janela e entrou o escuro da ainda noite. Foi à casa de banho urinar e lavar os dentes – a pasta tinha acabado. Ao passar pela cozinha pequena e amarelada bebeu um resto de café frio da cafeteira. Vestiu o casaco, pegou num guarda-chuva velho, nas chaves e saiu. Desceu as escadas estreitas e desembocando na rua dirigiu-se ao quiosque para comprar tabaco. Começou a subir a rua no meio de uma tempestade, enquanto fumava o primeiro cigarro do dia. Mal disposto porque o cigarro estava molhado distraiu-se e com um sopro do vento mais forte o guarda-chuva dobrou-se ao contrário e voou-lhe das mãos. Continuou a subir a rua apressado para não se molhar. E de repente levou com um raio na cabeça… 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

OHQLCURNC 21.

O homem ia a caminhar muito devagar pela rua acima e levou com um raio na cabeça. Caiu redondo no chão. Mas assim redondinho como um pião a rodar sobre as costas. No meio das tonturas e chamuscaduras levantou-se devagar confuso com a sua identidade. Esticou o pescoço ao sol como uma tartaruga. Deu um salto ninja a piscar o olho à infância e foi-se embora para casa, dentro de si mesmo.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

24, vinte e quatro ou gamaru, ou o dia mundial da tartaruga

Venho por este meio felicitar publicamente a minha tartaruga, Gamaru de seu nome, neste dia tão importante para a sua tartarugagem para si e para as suas comparsas encarapaçadas. 
Tenho inevitavelmente que destacar o facto de esta ter sido um pilar importante no caos da minha vida  desde que a encontramos no parque na rua atrás do bragaparque há sete ou oito anos. 
Uma contribuição incomensurável para a minha sanidade mental com a sua incansável capacidade de ouvir e os seus sábios conselhos ditos apenas na hora certa. 



(Eu sei que ela não é muito de ler blogues - coisa do século passado é o que diz - mas eu leio-lhe porque como sempre não estou sozinho, está cá ela à minha beira) 

domingo, 19 de maio de 2013

OHQLCURNC 20.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Não caiu. Ficou meio atordoado e sentiu um pequeno incómodo, daqueles incómodos que sentimos quando nos lembramos que poderíamos ter dito uma determinada frase numa inócua conversa da semana passada, conversa essa da qual nunca mais nos vamos lembrar passado o incómodo. Sacudiu-se para ver se o incómodo lhe passava e sacudiu a fuligem de ter levado com o raio. A fuligem saiu, o pequeno incómodo não. Não cresceu, nem diminuiu, não se tornou o centro da sua vida mas também nunca mais desapareceu. Morreu muito anos depois num acidente com uma estrutura que desabou por, numa tempestade, ter levado com um raio em cima.

domingo, 12 de maio de 2013

OHQLCURNC 19.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Incompreensivelmente conseguiu levantar-se antes de se transformar numa estátua de sal, roupas e tudo, mas sempre consciente. Vinham os gatos das redondezas lambê-lo, o que o deixavam com cócegas. Os gatos por sua vez faziam caretas felinas como quem não está profundamente agradado. As pombas foram-no bicando, iam caindo mortas passado um pouco o que levou a que passado um pouco já nenhuma o fizesse e se mantivessem afastadas. Houve flores que lhe nasceram aos pés. Flores muito feias e malcheirosas com picos em vez de pétalas. Umas cabras com pelo de palha de aço passavam lá a comê-las e em dez passagem pestiscaram-lhe os dedos dos pés também. Até que um dia vinha um búfalo a descer a montanha e tropeçou na rua por sobre a estátua - cornos enfiados no peito. O homem que virou estátua de sal quase chorou com a dor do coração perfurado mas só a chuva que caiu a seguir e lhe desfez os pedaços restantes conseguiu simular esse acto. 

domingo, 5 de maio de 2013

OHQLCURNC 18.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se. Toda a gente no mundo se levantou do sofá e bateu palmas. Que incrível façanha! Desde que o homem que ia a descer a rua apressadamente e foi mordido por um urso que não se via nada de tão espectacular.  Depois de dez minutos de palmas a humanidade voltou a sentar-se à espera que mais alguma coisa acontecesse. 

domingo, 28 de abril de 2013

OHQLCURNC 17


O homem acabava de parar um momento na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se cansado, como se tivesse corrido duas maratonas. Não que se lembrasse de alguma vez ter corrido duas maratonas, mas pareceu-lhe que se sentiria assim. Como tal, meio chamuscado, foi-se sentar na beira do passeio para tentar descansar. Tirou uma garrafa de água que tinha no bolso do casaco para dar um gole, no entanto a garrafa estava completamente derretida e a água evaporada. Perdeu-se uns minutos a pensar onde estaria a água e caiu para ao lado.
Acordou alguns dias depois numa cama. Olhou em volta e pensou que era a de um hospital. Mas não era. Estava num palácio enorme sem divisões ou andares – de apenas uma divisão portanto. Um palácio estúdio. A cama bem no meio. De lá conseguia ver a forma interior do palácio, as janelas enormes, os torreões, os pináculos, todos os pormenores que se costumam ver da parte de fora mas em negativo. Levantou-se a perguntar-se como é que tinha ido ali parar.
Como se sentia melhor dirigiu-se à porta e ao abri-la caíram-lhe em cima cinquenta mililitros certos de água. Depois de passado o susto, até se sentiu bem. À porta do palácio não viu nada que reconhecesse. Apenas uma estrada que parecia não ter fim.
Decidiu seguir por essa estrada e mal deu a segunda passada a estrada começou a ruir atrás dele. Assustado começou a correr para não cair junto com a estrada. Correu oitenta quilómetros até parar o desabamento da estrada. Parou um momento mas antes de conseguir pensar em mais alguma coisa, levou com um raio na cabeça…

domingo, 21 de abril de 2013

OHQLCURNC 16


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Transformou-se num cravo… de plástico. Mesmo assim murchou e secou. Foi sendo pisado até ficar em pó, em nada.

domingo, 14 de abril de 2013

OHQLCURNC 15


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se com uma sensação estranha de que era eu. Não sei se estão a ver qual é? Eu pelo menos acordo todos os dias assim… e a maior parte deles vou dormir sem me livrar dela.
Foi isso que passou a acontecer todos os dias ao homem que levou com o raio na cabeça. No início fazia-lhe confusão não se sentir como ele próprio, mas como eu. Apesar de todas as idiossincrasias que ser eu acarreta, o homem conseguiu adaptar-se. Ainda teve fases em que se meteu no álcool e nas drogas pesadas; fugiu em viagens termináveis mas longas; passou pelas religiões todas de joelhos em pé ou de pernas cruzadas. Tudo para ver se esquecia a sensação mas o resultado era muito momentâneo e por vezes com sequelas desagradáveis.
A dada altura resignou-se e deixou de lutar contra mim próprio, ou a sensação de mim próprio melhor dizendo... E a partir daí as coisas começaram a correr bem.
Um dia destes faço como ele!

domingo, 7 de abril de 2013

OHQLCURNC 14.


O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Veio logo uma ambulância buscá-lo. No meio da viagem foi acordando e ouviu umas frases suspeitas: Foi uma falha técnica; O sistema mediu mal as coordenadas; Não era suposto isto ter acontecido; Vamos ser todos despedidos se ele não aguenta.
Acordou ao fim da tarde na cama do hospital rodeado de familiares com um ar aliviado. Sentiu-se reconfortado mas uma frase de um primo deixou-o com a pulga atrás da orelha: Continua a festa.
Recuperou e continuou a sua vida normalmente. No entanto foi ruminando desde início o que tinha ouvido. Passou a acreditar que algo se passava. Que era especial e de alguma forma vigiado. Que a vida dele fazia depender dele todas as pessoas no mundo. Sentiu-se um messias, mas ao mesmo tempo, a sua tendência para a introversão não lhe permitia partilhar nenhuma destas ideias com ninguém.
Manteve neste limbo. Com a crença de que estava a ser constantemente vigiado passou a não fazer determinadas coisas que fazia antes: cantar no banho, falar sozinho, masturbar-se, escarafunchar o nariz, observar os poios que libertava ao mundo, olhar para os decotes e pernas que deambulavam pela sua frente, e mais todas essas coisas que tu fazes mas não queres que ninguém saiba.
Poucos meses depois entrou num convento (embora não tenha encontrado a fé no deus dos seus parceiros de mosteiro, a sua fé na vigia que tudo sabe levou-o a esta opção) e viveu uma vida de monge silencioso até ao fim dos seus dias.