O homem ia a caminhar rapidamente pela rua acima e levou com um raio na
cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se zangado e fumegar. No
entanto note-se que o senhor não se encontrava a fumegar por ter levado com um
raio, mas sim por estar profundamente zangado com tudo no mundo. Uma zanga tão
profunda que o levava a destilar ódio por todos os poros. Parecia filho de uma panela
de pressão. Ainda deu um chuto numa pedra, mas em vez de acalmar ficou a
sentir-se pior e mais odioso. Começou a ganhar uma cor escarlate e, fumegando
cada vez mais, acabou por explodir. O pasmo das pessoas na rua foi geral,
principalmente das que levaram com pedaços do homem em cima. Eles, os que
coiso, disseram que foram os terroristas de não sei onde por causa do medo e do
ódio religiopoliticosocialculturaloqualquercoiso. Marotos mentirosos.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
OHQLCURNC 39.
O homem ia a caminhar rapidamente pela rua acima e levou com um raio na
cabeça. Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se cheio de si, profundamente
iluminado acerca de todas as ideias. Sorriu com soberba perante os transeuntes.
No fundo sentia-se o maior. Partilhava as suas ideias e lançava as suas farpas
pelos meios que possuía. Havia sempre alguma reposta que lhe reforçava o
comportamento, no entanto a proporção do reforço era desproporcionada à reposta
que dava. Coisas do umbigo. No final não havia ninguém que o seguisse. Ecoava
no vazio. Mas nunca deixou de se sentir como o homem que levou com um raio na
cabeça, continuando a bradar.
domingo, 13 de outubro de 2013
OHQLCURNC 38.
Havia no céu um prenúncio de tempestade. O sol estava oculto atrás das
nuvens zangadas que discutiam entre si. Secundina, a nuvem mais balofa e irascível
de todas zurzia com argumentos mirabolantes e impropérios faustosos a sua
colega Castorina. De tanta barafunda a segunda, não de nome, mas de ordem de
evocação no texto, saiu derrotada e com uma raiva crescente dentro dela. Quando
estava a flutuar em direcção a casa sozinha fartou-se e olhando para baixo escolheu
um homem que ia a subir a rua muito rapidamente. Zás! Acertou-lhe com um raio
na cabeça. Ficou um pouco mais aliviada, mas quanto a Secundina, esta ainda
iria ouvir muitas e boas da boca dela.
domingo, 15 de setembro de 2013
OHQLCURNC 37.
O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça.
Caiu como um peso morto no chão. O chão por sua vez sentiu-se deveras magoado.
Isto tanto fisicamente, por causa do peso e da forma violenta como foi
atingido, como emocionalmente porque nunca esperava que o homem lhe fizesse
isso, nem levando com um raio na cabeça.
Foi uma surpresa muito desagradável para o chão que chorou um bocadinho
todos os dias durante alguns meses até suprimir o trauma com outros passeios.
Mesmo assim nunca mais foi o mesmo.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
OHQLCURNC 36.
O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça.
Caiu como um peso morto no chão. Perdeu totalmente a vergonha. Despiu-se por
completo e começou a passear nu pela cidade, a rebolar pela relva e a
refrescar-se nas fontes. Deixou de querer controlar o que dizia, como se de uma
criança se tratasse: “Ahah! Aquela senhora tem bigode!!”. “Aquele senhor coxo
anda esquisito”. “Olá, estou profundamente apaixonado por ti, desde que te vi a
primeira vez” – disse ele para a menina da caixa registadora enquanto coçava o
escroto e sorria sinceramente. Vieram pouco depois apanhá-lo e levaram-no para
uma instituição. Dizia sempre “Não sou eu que sou louco”.
OHQLCURNC 35.
O homem ia a caminhar rapidamente na rua e levou com um raio na cabeça.
Caiu como um peso morto no chão. Ficou cheio de vergonha e nunca mais saiu do
buraco que se formou no chão. Passou a beber água que escorria pelas paredes e
a comer uma dieta de insectos e ocasionais raízes atrevidas. Fez uma espécie de
tampa para o buraco com a roupa para ninguém espreitar. A sua actividade mais
comum era contar as gotas de suor que lhe caiam da testa devido à ansiedade.
Entretanto a câmara mandou alcatroar o buraco e o homem que levou com um
raio na cabeça por lá ficou a comer bicharada e a beber água lamacenta.
Passados mil anos, arqueólogos do futuro escavaram o buraco e foram lá
encontrá-lo. Foi nesse momento que o homem colapsou de vergonha por estar
exposto à humanidade de novo.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
OHQLCURNC 34.
O homem ia a caminhar calmamente na rua e levou com um raio na cabeça.
Caiu como um peso morto no chão. Ao cair abriu-se-lhe a mala, de onde saltaram
um número interminável (para o comum mortal) de notas de todas a cores – do cinzento
ao violeta passando pelo amarelo, laranja, azul, rosa, e verde – que se espalharam
quase que uniformemente à volta do buraco criado pelo raio onde se encontrava
deitado. Quem via de cima tinha uma imagem única e estimulante às papilas
gustativas do olhar – parecia uma flor psicadélica repleta de pétalas coloridas
e com um homem farrusco no meio. Passou por lá, momentos breves depois, uma mulher que apanhou a flor e
a levou ao nariz. Cheirava-lhe um pouco a chamuscado mas mesmo assim não a
deitou fora e colocou-a no cabelo cheio de frescos caracóis. Quando chegou à
praia não se lembrou mais da flor e ao dar o primeiro mergulho nas ondas do mar
imenso, perdeu-a para sempre.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
OHQLCURNC 33.
O homem ia a caminhar rapidamente na rua e levou com um raio na cabeça.
Caiu como um peso morto no chão. À volta começara a surgir sorrisos e esgares
de esperança. Quem levou com o raio não era um homem qualquer mas o homem mais
vil da aldeia. Dizia-se por aí que batia na própria mãe e que a enviou para um
lar no estrangeiro só para ela não poder ser compreendida; diziam que quando
via gatinhos bebés os apanhava logo para se divertir a atirá-los aos porcos que
os comiam; diziam que já tinha atropelado doze pessoas só por estarem alguns centímetros
fora da passadeira; diziam que era sempre mal educado, tratando toda a gente
como seu subordinado; diziam muitas coisas.
Foi com regozijo que a população abraçou aquele raio naquela cabeça
daquele homem. Mas, o drama, o horror, o homem levantou-se. Estava tudo bem.
Toda a gente virou a cara e cerrou o punho pela injustiça. O homem começou a
rir às gargalhadas enquanto saltava em cima de um formigueiro.
Pois é. O povo nem sempre fica quieto, logo em uníssono deram-lhe com um
pau na cabeça. Desta vez de forma fatal. O povo ficou calado a seguir. Culparam
o raio e seguiram o seu caminho.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
OHQLCURNC 32.
O homem ia a caminhar afincadamente na rua e levou com um raio na cabeça.
Caiu como um peso morto no chão. Ficou lá um buraco. Pelos vistos alguém não
gostava das ideias dele e esse alguém, como não gostava de sujar as mãos,
mandou outro alguém acertar-lhe com um raio fulminante. Com o tempo parece que
as pessoas, algumas muitas pessoas apenas, se esqueceram desse atentado e do quão
pouco respeito pelas ideias diferentes da sua tinha esse mandatário, e assim ergueram-lhe
uma estátua. Se calhar ninguém se esqueceu mesmo, mas fecharam os olhos às
malandrices dos atentados para o elogiar por outras coisas várias. Desviaram o
olhar como se de negligentes profissionais se tratassem. Na verdade o homem lá
se levantou a custo do buraco de onde levou com o raio e continuou a caminhar.
Se fosse do mesmo tipo de pessoa ainda encomendava um raio para cair em cima da
estátua do outro.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
OHQLCURNC 31.
O homem ia a caminhar rapidamente na rua e levou com um raio na cabeça.
Caiu como um peso morto no chão. Levantou-se revoltado com a vida. Mas que
raio, cair-lhe logo a ele um raio na cabeça. Ainda por cima quando tinha coisas
a fazer e não ao fim do dia quando se diz que já está tudo feito. (Como se
ficasse tudo feito alguma vez). Desceu a rua a resmungar e foi a casa trocar a
roupa chamuscada. Ao todo “perdeu” meia hora do seu tempo com o acontecimento e
com isso ficou revoltadíssimo em vez de aproveitar a singularidade que lhe
tinha sido propiciada experienciar. Voltou à rotina e no dia seguinte já tinha
tudo dentro da sua ordem. Não levou com mais nenhum raio. Revoltou-se com
outras banalidades apenas.
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